sexta-feira, 12 de maio de 2017

Anotações da palestra pública com Chagdud Khadro sobre a Morte em 11/05/2017 - Chagdud Gonpa RJ

Eu só soube do evento muito tarde e não havia mais vagas, mas acabei conseguindo ir a esta palestra disputadíssima de uma forma meio mágica. Só foi possível por ter ido a esta outra palestra com Mingyur Rinpoche (aliás, a meditação que ele conduziu foi maravilhosa, clique aqui para assistir) uns dias antes. Uma moça se sentou ao meu lado, super simpática, e acabamos amigos. Então, tenho que agradecer muito a ela, Clarice Rohde, que lembrou de mim quando sua amiga falou que não poderia comparecer ao evento com Chagdud Khadro e quis oferecer a vaga para alguém.

Achei algo em Chagdud Khadro muito parecido com o olhar minha querida avó já falecida, trazendo uma sensação de carinho enorme, algo como uma intimidade automática. E os ensinamentos, na presença dela, pareceram mais sentidos (talvez realizados) ao invés de apenas entendidos racionalmente. Ao final da palestra, quando fui agradecer e oferecer o kata (que é um pano que se oferece ao lama e ele devolve abençoado) para ela me disse essas palavras que ficaram se repetindo em minha mente por horas: "It is so good to recognize a friendly face on the crowd..."




ANOTAÇÕES: 

- Importância de contemplar a vida humana preciosa e a impermanência

- As pessoas em geral veem a morte de outras ao seu redor mas acham que nunca vão morrer...

. Morte repentina por acidente - consciência sai rápido
. Morte por velhice, natural, corpo deixado sozinho - consciência permanece alguns dias (no Tibete é tradicional deixar o corpo sem ser tocado por três dias)

- Prática de Poa: importante para o Brasil - já que aqui não se pode ficar sem tocar o corpo por três dias - por lei. Com Poa, a  consciência sai e o corpo não importa mais depois... Pode ser tocado, enterrado, cremado etc. Pode-se pedir para doar os órgãos (muito auspicioso ajudar outros a seguir vivo) só depois de alguém fazer Poa para o falecido.

- O que podemos fazer com mortos, para ajudar a consciência a sair pelo alto da cabeça (chacra da coroa), que é mais auspicioso: dar batidinhas ou tocar alto da cabeça (qualquer pessoa pode fazer, não precisa ser Lama)

- Após a morte: há um estado de calor no chacra central no peito, sem mais raiva (que vem do pai, luminosidade branca que desce pelos canais da cabeça para o peito) nem apego (que vem da mãe, luminosidade vermelha que sobe do ventre para o peito). Nesse estado intermediário, o corpo fica aquecido no peito, sem decomposição. Chagdud Tulku Rinpoche ficou assim por 5 dias e meio após a última respiração. Paramahansa Yogananda ficou 20 dias.

- Meditação. É cultivo de abertura para a vacuidade, Darmakaia. É preciso paciência. Com adversidade, inimigos e medo da vacuidade. Somos viciados em movimento, fazer algo. O estado de abertura total pode dar medo...

- Sem familiaridade com meditação, após a morte aparecem logo luzes, movimento e deidades (estado não dual de projeção da própria mente). Para não praticantes, quase não dá tempo de perceber o Darmakaia, que é insuportável. A mente se move e Darmakaia e depois Sambogakaia se fecham e surge logo o bardo do vir a ser.

- "Fantasmas" - Seres do bardo, com a tendência humana a voltar pra casa. Todos temos esse apego a estabilidade. Até moradores de rua delimitam seus espaços, criam limites e hábitos. Por causa dessa estabilidade do lar, após a morte muitos voltam para casa e ficam sem poder se comunicar com os vivos, presentes mas sem poder se comunicar ou interagir com nada "sólido". Praticar o Sur ajuda esses seres que não conseguem se alimentar de sólidos, mas sentir aromas. Além disso, dedicar méritos de qualquer prática também ajuda estes seres. Ou oferendas de lamparinas. Não é bom chorar assim que alguém morre. Só traz mais confusão para ele. É ótimo lembrar de falar pro falecido se lembrar de seu refúgio espiritual. Recomendado não tocar nos pertences do morto por 21 dias. Pode irritar se houver apego ainda. Melhor praticar o que estiver mais habituado, pois essa prática tem mais conexão, mais afinidade, logo será mais poderosa. E dedicação de mérito pro falecido.

- É o anseio por estabilidade que leva a renascer. Importante lembrar de pensar em Guru Rinpoche, Amitaba, Chagdud... Depois da morte, onde a mente pensa a mente vai, muita instabilidade... Daí a necessidade do reflexo rápido de tomar refúgio em situação difícil, treinar durante a vida. Vai ser assim na morte. Treinamento!!!! Rezar sempre que aparecer uma crise, confusão, briga, negatividade!!! Quanto mais instantâneo, melhor. Treinar em vida!!!

- Contemplação da impermanência e morte senão: vida sem sentido.

- Acumulação de negatividade a vida toda deixa a morte mais difícil. É preciso purificar todas as emoções negativas, coisas não resolvidas etc.

- No momento da morte: Ver o positivo, oferecer tudo que perderemos. Posses, Inteligência etc. Fazer cartas agradecendo. Dedicar mentalmente. Fazer testamento. Deixar tudo resolvido...

- Sugestão de um Rinpoche: criar caixa com tudo: Testamento, cartas, quem avisar para rezar e fazer práticas, quais pessoas avisar e práticas etc. E avisar todos onde guarda a caixa, antes do processo de morte, para ser encontrada e aberta.

- Livro recomendado: Peaceful Death, Joyful Rebirth


P.S.: Outro livro que aprofunda o tema e eu já li e recomendo: O livro tibetano do viver e do morrer

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